Crônicas Corporativas

Há 22 anos trabalhando, coleciono vitórias e derrotas, experiências positivas e negativas de coisas que tenho orgulho de lembrar e outras que desejaria esquecer. O objetivo deste blog é contar um pouco do que eu aprendi ao longo da minha carreira.

30/11/07

Ser Chefe

Estou enviando este artigo porque acredito que ser chefe é uma questão de aprendizado. Para você ser chefe precisa ter conhecimento técnico no assunto para que os subordinados não fiquem falando que sabem mais do que você ou mesmo que fiquem questionando suas estratégias, assim como também precisa ter bom relacionamento com a sua equipe e com os outros departamentos, pois assim influenciará os outros para que façam o que você orienta sem enfrentar resistências.

Mas tem um terceiro ingrediente, e é isso que precisamos expressar. Há que se ter vontade política, ou mentalidade de chefe, ou ainda um outro nome para essa mesma coisa, tem que ter postura de chefe. Um caso interessante de se contar é o de um coordenador da nossa empresa, que queria ser executivo, mas não queria exercer algumas tarefas normais de um executivo como, por exemplo, demitir alguém. A primeira vez que ele teve que demitir uma pessoa, tremia mais que esquimó. Por fim entendeu que fazia parte de um “Bem Estar” maior. E o que quer dizer isso? É o bem estar de todos e não somente de uma pessoa.

É comum que ao começarmos a carreira, tenhamos pensamentos revolucionários, do tipo "quando eu for chefe, serei a mesma pessoa que sou hoje". Porém posso dizer baseado nos meus 21 anos de "carteira" que isso é utopia. Não duvido que um chefe possa ser "gente boa", pois acho que não só pode como deve ser. Mas seguramente não pode ser um palerma, sentimental e com medo de chatear alguém.

Assim como um chefe existe para motivar seus comandados, ele também existe para manter a ordem e fazer com que a empresa avance. Se o departamento funcionar bem, o dono da empresa fica feliz, a diretoria também, assim como o chefe e todos os funcionários, pois estes mantêm seus empregos. Mas se o chefe tiver dó dos funcionários, estes vão fazer cada vez menos resultados, a diretoria ficará descontente, o chefe será reclamado e os funcionários correrão o risco de serem substituídos.

A relação do chefe com seus subordinados pode ser comparada a relação entre um pai (ou mãe) e um filho em idade escolar. Se o pai permite ao filho matar aula em dia frio para poder dormir até mais tarde, o filho seguramente vai achar bom, mas este pai não estará fazendo um bem ao filho. No futuro o filho vai se comparar inferiormente com alguém que foi a escola. Não há nada pior do que criança arteira que não respeita ninguém. Um bom pai é aquele que disciplina, que põe regras e que sabe cobrar e recompensar. O chefe também. Um bom chefe não está do lado da empresa em detrimento à vontade dos funcionários e nem do lado dos funcionários contra a empresa. Um bom chefe entende que tanto os funcionários quanto a empresa estão de um lado só, que é a busca pelo sucesso.

Um bom chefe deve influenciar e não ser influenciado. Deve fazer com que sua equipe “entre na sua pilha” e não “entrar na pilha” da equipe. Um bom chefe deve entender que o que o fez chegar aonde chegou foi seu comportamento positivo aliado à sua competência técnica. Se quiser ser útil aos seus liderados, deverá ensiná-los o caminho das pedras, motivando-os a serem como ele próprio foi antes de ser chefe. Um chefe que entra no embalo de sua equipe tem vida curta.

Se você, depois de tudo isso, cisma que pode não querer ser chefe, alerto-o para pensar um pouco no futuro. Querer crescer profissionalmente é mais ou menos como "tomar juízo". Alguma hora você terá de fazer se tiver alguma ambição na vida. Se não for agora, será no futuro, mas quanto mais tempo se passar, menos resultados o seu juízo vai te proporcionar. E aí sempre vem aquele sentimento de "por que não entendi isso antes?".

criado por aguinaldocps    9:46 — Arquivado em: MELHORES ARTIGOS, comportamento, opinião pessoal

25/11/07

Permita que te desafiem se quiserem.

Quando decidi iniciar esse blog não o imaginei tão acessado. Na época eu até duvidava que alguém quisesse lê-lo. Mas já vou completar 2 anos na web agora em janeiro e tenho tido alguns leitores assíduos, o que me deixa muito orgulhoso.
Uma dessas pessoas, a Picida Ribeiro, ou como ela própria se entitula, uma jovem de 50 anos, me enviou uma mensagem expondo algumas de suas inseguranças no novo trabalho. Eu prometi que responderia, dentro de minhas limitações, é claro.
Basicamente o conflito se passa diante de ser líder de equipe comercial dentro da empresa do irmão, situação que a deixa insegura ou constrangida, possivelmente por alguém poder pensar que seu cargo é apadrinhado. Pelo que entendi a colega Picida está determinada a resolver isso.
Na idade média, principalmente em reinos localizados na Europa, Oriente Médio e norte da África, era muito comum que o irmão do rei se tornasse chefe do exército. Isso invariavelmente gerava conflitos com os tios, que muitas vezes eram substituídos por sobrinhos no momento que o novo rei assumia o trono. Para terem obediência dos comandados os novos líderes se punham a frente da tropa, no campo de guerra, para provar sua bravura, permitindo a quem quisesse, desafiá-lo.
É mais ou menos isso que você precisa fazer, permitir que outras pessoas mostrem seu potencial, deixar que cada um receba os méritos pelas suas atitudes ou resultados e transmitir a sua equipe confiança. Se alguém acha que pode ser melhor que você nessa função, que prove ser. Se este não puder provar, que te respeite.
É importante que eles confiem em você, independente de ser irmã do patrão, você é uma profissional que está no time. O verdadeiro líder é aquele que não tem medo de ser superado por um membro de sua equipe. Um líder precisa ser justo, correto e fiel. Não pode fazer jogo duplo, não pode ser amigo da equipe enquanto está no páteo e ser carrasco quando está no escritório. Ele não é do povo ou do patrão, ele é o que deve ser, dando razão a quem tem e trabalhando por quem merece.
É fundamental que você seja sempre a mesma pessoa. Assim, terá a confiança de sua equipe e do seu superior. Quando vir uma injustiça, mantenha-se do lado que julgar correto, colocando-se a influenciar o outro lado a ceder. Fazendo dessa forma, sua equipe se sentirá segura e produzirá. Seu patrão se sentirá bem representado e poderá partir para outras tarefas.
Sugestões de leitura:
Separar o Joio do Trigo, texto de Max Gehringer, que você pode encontrar transcrito nesse mesmo blog.
O Monge e o Executivo, livro de James C. Hunter, a venda em qualquer livraria.
Um grande abraço e meu desejo de muito sucesso com a sua profissão.

criado por aguinaldocps    11:51 — Arquivado em: comportamento, opinião pessoal

24/11/07

É preciso sepultar o passado para ir em frente

É preciso sepultar o passado para poder viver o futuro.

Muitos esportistas encerram a carreira no auge da boa forma. Ganham com isso o direito de ficar na história como grandes atletas e são lembrados pelas melhores atuações. Outros, porém são pessoas que continuam em atividade mesmo em queda de rendimento. Chegam a competir com idade avançada, quando nem mesmo a experiência permite equilibrar o jogo com os mais jovens. Com isso muitas figuras consagradas mancham a carreira com atuações questionáveis que poderiam ser facilmente previstas.

Poderíamos citar como exemplo o fantástico goleiro uruguaio Rodolfo Rodriguez. Ele teve seu auge como goleiro do Santos no campeonato paulista de 1984 e, na época, foi considerado o melhor do mundo para a sua posição. Porém, em 1993, aos 37 anos, Rodriguez protagonizou uma cena que ficou para a sua historia, quando jogava pelo Bahia, o goleiro já sem elasticidade teve várias atuações abaixo da média, até por fim se encontrar com Ronaldo Fenômeno. Naquele jogo o Bahia perdia para o Cruzeiro por 5 a 0 e Rodolfo fez uma defesa e, para agradecer aos céus, soltou a bola, o garoto espertamente a roubou e marcou o gol! O experiente goleiro não imaginava quem seria Ronaldo.

Especialistas tratam o assunto em base a dificuldade que algumas pessoas de sucesso tem em abandonar a carreira e partir para a próxima. Aceitar a idade é a melhor forma de manter o sucesso, enquanto que ficar lamentando atuações ruins torna o profissional traumatizado e incapaz de dar seqüência ao trabalho.

Para explicar melhor, parar de jogar e partir para uma carreira sequencial de técnico, dirigente, comentarista ou afins, pode tornar o profissional uma referência positiva naquele assunto. Chamam isso de "sepultar" o passado para viver o futuro.

Isso também é comum em empresas, quando pessoas são demitidas inesperadamente  e não aceitam a realidade. Julgam-se injustiçadas e passam muito tempo depois mantendo contato com ex-colegas de trabalho procurando saber do que acontece na antiga empresa. Procuram informações, criam estratégias, ficam indignados e, com isso, tornam-se incapazes de seguir sua carreira. Essas pessoas também precisam sepultar seu passado para poderem viver o presente e o futuro.

Assim pode ser também um amor frustrado. A melhor maneira de esquecer a dor é partir para outra e a melhor maneira de encontrar um outro amor é sepultar o antigo. Mas não literalmente.

criado por aguinaldocps    11:04 — Arquivado em: MELHORES ARTIGOS, comportamento, esportes, opinião pessoal

23/11/07

De Maquiavel a Maquiavélico

A pedido da Fernanda, que deixou um comentário no post de ontem, vamos aprofundar um pouquinho mais no assunto da Lei de Gerson. Quem terá sido o inventor da malandragem, pergunta ela?

Não sei quem inventou isso, Fernanda. Deve ter sido algum "homem da caverna" ou um dinossaouro, quem sabe? Mas para a sua pergunta não ficar sem resposta, posso te dizer ao menos quem a oficializou. 

Foi um renascentista chamado Nicolau Maquiavel. Era um historiador, poeta, diplomata e músico italiano que viveu no século XV. Nascido em Florença, viveu durante o governo de Lourenço de Médici, numa época onde os costumes populares herdavam das constantes batalhas entre os ducados italianos. Ele, como político, aprendeu a lançar mãos de atitudes não muito éticas para levar vantagem. Uma de suas frases mais famosas afirma que "os fins justificam os meios".

É aí, provavelmente, que surgiu o uso de um adjetivo que partia de seu nome, que hoje é muito usado em nossa língua, quando dizemos que fulano é "maquiavélico". É provavelmente esse o precursor da Lei de Gerson, conforme a pergunta da Fernanda.

Infelizmente hoje, no Brasil, algumas pessoas se orgulham de serem espertos, de "darem nó em pingo dágua", se julgam mais inteligentes que outros por terem conseguido ganhar um dinheiro extra numa negociação desonesta. Muitos vibram pelo "vacilo" do outro.

Há uma semana vimos no noticiário um motoboy que entregava numa delegacia, em Brasília, os U$ 6.000,00 encontrados num shopping, enquanto outros sentem-se bem por terem recebido um troco maior do que deveriam na padaria.

O que nos faz ter um sentimento de conforto é poder confiar nos outros. Quando não confiamos, sentimos ter que dormir de olho aberto. Infelizmente em nosso cotidiano existem muitos Gersons, Maquiavéis, Lalaus, Zé Dirceus e outros que dão exemplos tão negativos.

criado por aguinaldocps    12:07 — Arquivado em: MELHORES ARTIGOS, comportamento, música/cultura, opinião pessoal, política

22/11/07

Lei de Gerson

Para quem não conhece a expressão, a Lei de Gerson é a de levar vantagem em tudo. O princípio disso se deu na segunda metade da década de 70 quando Gerson de Oliveira Nunes, um jogador de futebol bem sucedido, campeão mundial pelo Brasil em 1970, protagonizou uma propaganda de cigarros onde finalizava com a frase: "Você também gosta de levar vantagem em tudo, certo?"

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A campanha tinha a intenção de mostrar que fumar Vila Rica seria uma vantagem, por ser um cigarro mais barato. Porém a frase foi interpretada como um resumo da suposta malandragem brasileira, símbolo do jeitinho e da corrupção, ficando popularmente conhecida como lei de Gérson. Mais tarde, diante do impacto, o jogador se desculpou publicamente e lamentou ter associado seu nome a esse claro defeito de parte da população brasileira.

Talvez Gerson (o jogador) tenha sido escolhido para a propaganda pelo seu perfil (visto até então pelo lado positivo), do carioca malandro, esperto, ligado, etc. Acontece que embora contestado por todos, o adepto a Lei de Gerson é mais comum do que se imagina. É algo que todos detestam, mas quase todos querem ser. As pessoas estão muito preocupadas em levar vantagem nas coisas, em vez de se preocuparem com o bem comum.

É daí que surgem vendedores que se orgulham de "enrolar" o cliente e transmitem o ensinamento de que ser esperto, malandro e "liso" é uma característica de valor positivo.

É justamente por isso que o país (e o mundo) passa por tantos problemas. A corrupção existe porque é interessante para várias partes. Um policial somente é corrupto porque alguém o corrompe. O mesmo cidadão que fica indignado com o evento do mensalão, dias depois oferece R$ 50,00 para o guarda não multá-lo. O mesmo rapaz que se lamenta por ter sido assaltado na praia é o que dias antes estava consumindo maconha, uma droga vendida por traficantes que invariavelmente sustentam a criminalidade.

Há uma semana eu estava numa rodovia aqui de São Paulo e o trânsito parou, formando-se um congestionamento. Imediatamente alguns motoristas começaram a usar o acostamento para cortar o trecho e consequentemente depois de alguns poucos minutos, parou também. Havia acontecido um acidente, mas a Ambulância custou chegar até o local devido ao acumulo de carros inclusive pela única via alternativa, o acostamento.

O motorista que tomou a iniciativa de cortar os outros não deve ter tido a intensão de prejudicar o atendimento do acidentado, mas simplesmente de ser esperto e não ficar "marcando bobeira" ali parado. Quis dar uma de bom, do tipo "fiquem aí os mais bobos, pois eu vou embora". Não fosse pela ambulância, ainda assim esse motorista prejudicaria o honesto, que estava lá aguardando o trânsito fluir.

Não acho que as pessoas devem fazer o caminho mais longo e nem que não possam ultrapassar o carro da frente. Ultrapassar é justo quando o seu direito não fere o do outro, mas ultrapassar sem trapassear, sem seru um "Dick Vigarista".

"Levar vantagem em tudo" pode significar, a médio prazo, uma grande desvantagem. Se eu crio ou ajudo a criar a cultura da malandragem na minha comunidade, estou alimentando a possibilidade de eu ser vítima dessa mesma cultura no futuro. Se um cidadão "esperto" desvia dinheiro da educação para o próprio bolso, vai criar cidadãos mal educados que lhe gerarão problemas.

Em contrapartida, se crio uma cultura de honestidade, poderei desfrutar dessa segurança no futuro também. Se os hoteis do Rio de Janeiro investissem parte de seus lucros em educação coletiva para a comunidade, geraria alternativas de vida a população, a cidade teria menos trombadinhas e atrairia mais turistas. Com isso os próprios hotéis teriam mais lucros.

20/11/07

Separar o Joio do Trigo

O ambiente de trabalho numa determinada empresa é venenoso. Existe solução para isso?

Sim, e ela é bíblica: separar o joio do trigo. Certamente nessa empresa existe uma pequena minoria de pessoas envenenando o ambiente. Eles são “o joio”.

O joio era uma erva daninha que crescia no meio da plantação de trigo. Era uma plantinha aqui, outra ali. Em proporção, era insignificante. Mas o joio era altamente tóxico. Se fosse moído junto com o trigo toda a farinha ficaria envenenada.

A boa notícia, para os consumidores de farinha de trigo, é que o joio não existe mais. Foi erradicado há séculos. A má noticia é que, em muitas empresas, o funcionário-joio ainda existe. Sozinho, é capaz de contaminar todo o ambiente. Para existir, o funcionário-joio precisa encontrar terreno fértil para suas intrigas.

Nas empresas com bom ambiente, ele é imediatamente identificado e arrancado pela raiz. Mas brota com vigor naquelas organizações cujos dirigentes tratam todos os empregados como se fossem “farinha do mesmo saco”.

Max Gehringer

criado por aguinaldocps    12:50 — Arquivado em: comportamento, outros autores

19/11/07

Festa dos anos 80

Os anos 80 ficarão para a eternidade. Posso afirmar isso tranquilamente pois vivi essa época. Nasci em 1972 e tinha 10 anos quando o Brasil perdeu para o Paolo Rossi (digo, seleção da Italia) na Copa do Mundo de 82. Ouvi Blitz e vi o surgimento do Ira e do Barão. Odiei os Menudos, brinquei com o Cubo Mágico, assisti Rock Santeiro e me apaixonei pela Ninon, personagem da Claudia Raia.

 

Assim foram os anos 80. E é isso que nos faz hoje festejarmos o estilo dos cabelos armados e roupas ridiculas, mas que na época eram moda. A Uptime realizou uma festa na Cachaçaria Tradicional em Campinas para relembrar a época.

Com a presença de umas 300 pessoas, pudemos nos divertir de verdade, sem sermos incomodados por btidões e funks que insistem em fechar as festas da cidade. Essa foi a oportunidade de ouvirmos os flashback sem haver preocupação de sairmos antes do bonde do tigrão e companhia.

Mas seguramente o ponto principal está no fato de podermos nos reunir com alunos, colegas de trabalho e convidados e deixarmos a Uptime ainda mais aberta e fidelizadora. As fotos mostram um pouco do clima na pista de dança.

criado por aguinaldocps    15:25 — Arquivado em: comportamento, curiosidades, mundo moderno, opinião pessoal, política, projetos na Uptime

14/11/07

Reunindo os amigos

Reunir os amigos numa só foto não é muito fácil. Marcamos uma reunião e sempre tem alguma ausência, sempre alguém não pode participar.

Considerando isso, encontramos uma maneira de reuni-los. Que tal uma viagem a Springfield? Aqui estão grandes amigos.

criado por aguinaldocps    22:06 — Arquivado em: curiosidades

12/11/07

O futebol feminino e a evolução da Pátria

O Santos F.C. (futebol feminino) perdeu o jogo por 2 X 1 para o Botucatu, na semana passada. Uma das personagens do jogo era a canadense Melissa, atacante que chegou ao Brasil em Janeiro e tem viagem de volta ao seu país marcada para 21 de dezembro.

Melissa é formada em Educação Física e fez inclusive mestrado, mesmo assim veio ao Brasil “aprender” futebol. Segundo ela “Não vou esquecer tudo o que vivi no país de vocês. Foi uma experiência incrível. Espero voltar um dia”, disse a atacante, em um português carregado de sotaque. Ela foi selecionada em uma das clínicas de futebol que o técnico Kleiton Lima, do Santos, ministra nos Estados Unidos.

Antes de conhecer o treinador, Melissa já ouvia falar sobre o Peixe. “Claro que a gente sabe o que é o Santos no Canadá! É o time do Pelé!”, sorriu, bastante satisfeita por finalmente jogar no estádio que foi a casa do Rei do Futebol. “Perdemos o jogo, mas sempre lembrarei desse dia. A atmosfera foi ótima. Estádio cheio [3.153 pessoas estavam na Vila, público enorme para o futebol feminino], torcida cantando, campo bonito: tudo de bom.”

De fato, o ambiente da noite de quinta-feira era bem diferente da situação que Melissa encontrou durante toda a temporada. Como a profissionalização do futebol feminino é mínima no Brasil, sequer há categorias de base, as jogadoras do Santos recebem apenas uma ajuda de custo da prefeitura, moram em um alojamento cedido pelo clube e muitas vezes são obrigadas a treinar na praia, Kleiton Lima já havia preparado a canadense para o impacto.

“Precisei de um pouco de adaptação mesmo, mas a gente se acostuma. No Canadá, o futebol também é semiprofissional. A gente pratica por hobby. Existe essa palavra em português?”, pergunta Melissa. Em Montreal, no entanto, ela cursou faculdade de Educação Física e fez até mestrado na área. Muitas de suas colegas brasileiras do Santos sequer completaram o Ensino Médio.

Outra diplomada que marcou época na Vila Belmiro foi a norte-americana Caithy Fischer, antropóloga norte-americana formada em Harvard. Lateral-esquerda do Santos entre 2004 e 2005, ela se inspirou a escrever um livro sobre as mazelas do esporte no Brasil. Kleiton Lima, inclusive, cedeu boa parte de seus recortes sobre futebol feminino para Fischer, que ganhou uma bolsa de US$ 50 mil da Fifa para desenvolver o projeto em mais países.

Nós, os brasileiros, o que poderíamos dizer para essas jovens, Melissa e Caithy? Podemos dizer que são loucas de virem jogar no Brasil considerando seus diplomas? Se sim, então o que poderíamos dizer a esse povo que se mete a fazer ajuda humanitária? Será que existimos simplesmente para termos retorno de nossas profissões ou também temos nosso papel social?

A resposta para essa pergunta, cada um tem em seu íntimo, mas a minha é clara: Acho que Melissa e Caithy podem se orgulhar de terem vindo ao Brasil, assim como as brasileiras devem se orgulhar do Vice Campeonato Mundial de futebol e da medalha de Ouro no Pan. Tudo que hoje é lindo, um dia não foi. As maiores empresas do mundo começaram desacreditadas, o vôlei brasileiro começou desacreditado, Bill Gates era chamado de louco.

Melissa e Caithy, seguramente vocês nunca vão ler essa coluna, mas mesmo assim quero deixar meu recado: O Brasil é um país lindo, fantástico, que tem uma gente maravilhosa e que tem problemas como em todo outro lugar do mundo. A forma com que se administra esses problemas estão erradas, mas nós os brasileiros, um dia vamos acertar. É difícil, pois somos mais de duzentos milhões de cabeças que precisam ser orientadas, motivadas, acalmadas. De uma vez só é difícil, pode ser que demore 10 anos, 50 anos, 200 anos ou mais. Eu e os meus leitores não estaremos mais aqui, mas o importante é sabermos que esse movimento pela ética e pelo amadurecimento da nossa Nação passou por nós. Que as próximas gerações desfrutem, mas que eu esteja entre os heróis (ainda que anônimos).

criado por aguinaldocps    14:34 — Arquivado em: MELHORES ARTIGOS, esportes, mundo moderno, opinião pessoal, política, responsabilidade social

O morro

- Não consigo subir nesse morro - disse o menininho. - É impossível. O que vai me acontecer? Vou passar a vida inteira aqui no pé do morro. É terrível demais!

- Que pena! - disse a irmã. - Mas olhe maninho! Descobri uma brincadeira ótima! Dê um passo e veja se consegue deixar uma pegada bem nítida na terra. Olhe só para a minha! Agora, você veja se consegue fazer uma tão boa assim!

O menininho deu um passo:
- A minha está igual!

-Você acha? - disse a irmã. - Olhe a minha, de novo, aqui! Eu faço mais forte que você, porque sou mais pesada e por isso a pegada fica mais funda. Tente de novo.

-Agora a minha está tão funda quanto a sua! - gritou o menininho. - Olhe! Esta, esta e esta, estão o mais fundas possível!

-É, está muito bom mesmo - disse a irmã -, mas agora é minha vez, me deixe tentar de novo e vamos ver!

Eles continuaram, passo a passo, comparando as pegadas e rindo da nuvem de poeira cinzenta que lhes subia por entre os dedos descalços.
Dali a pouco, o menininho olhou para cima.

-Ei - disse ele -, nós estamos no alto do morro!

-Nossa! - disse a irmã. - Estamos mesmo.

E ainda existem pessoas que insistem em ver somente o tamanho do morro e não os passos para subi-lo!!!

criado por aguinaldocps    12:28 — Arquivado em: fábulas
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