
O cidadão chegou três horas mais cedo no balcão da companhia aérea no Rio para garantir um lugar prometido na fila 26, a da saída de emergência com aquele espaço precioso para esticar a perna. Levava até um e-mail da companhia garantindo o lugar 26- A.
A funcionária consultou o computador: "Negativo. Este assento já foi tomado em São Paulo."
Era um vôo Rio - São Paulo - Nova York. Vamos dizer que a empresa se chama Transportes Aéreos Medíocres.
"Tem lugar na executiva?" O cidadão ia trabalhar cedo em Nova York. Queria chegar quase inteiro.
"Na executiva tem. O sr. pode fazer um upgrade ali na loja." Ela conferiu o número de milhas. 40 mil, mais que suficiente para o upgrade.
O cidadão entra na fila. O funcionário sorridente e cordial examina a passagem. "Este seu bilhete vale 30 dólares e não dá direito a upgrade. Se quiser viajar de executiva vai custar 3.740 dólares". O cidadão levou um choque pelo preço absurdo e porque tinha pago mil dólares pela passagem.
Reagiu em silêncio, com os olhos nos olhos do funcionário. Deixou o tempo passar. Nenhum dos dois piscou. O funcionário sorria.
O cidadão disse uma grosseria imensa e impublicável ao funcionário. Ele levou um choque mas não perdeu a compostura.
"Sinto muito", disse ele, devolvendo o bilhete.
O cidadão quis ver o supervisor. Veio outro jovem cordial e sorridente. Ouviu o caso e abriu o jogo.
"Nem se pagasse os 3.700 o senhor viajaria. O vôo de hoje está overbooked. O sr. vai amanhã no vôo diurno".
"Negativo". O trabalho em Nova York não podia ser adiado. Envolvia mais gente e um prazo final.
Depois de 2 horas e 10 minutos no balcão, o cidadão foi colocado num vôo que exigia troca de avião em Miami e chegaria em Nova York por volta do meio-dia.
O supervisor ofereceu ao cidadão o telefone de uma sala da empresa que se dispunha a escrever uma carta explicando o "overbooking".
"Em português ou inglês?" perguntou a funcionária.
"Nas duas línguas, por favor." Nenhuma das duas cartas falava em overbooking e, estranhíssimo, uma dava explicação diferente da outra. Uma era operacional, outra culpava o tempo.
Ele comentou as disparidades com a funcionária e perguntou: "vocês nunca são processados?"
Sorrindo, sempre gentil, explicou que às vezes processam, mas sempre perdem.
"No Brasil, o Sr. sabe, não vale a pena."
Na sala, o cidadão descobriu que tinha companhia na miséria.
Uma gringa pesada e brava entrou na sala para usar o telefone e avisar o patrão em Nova Jersey que ia chegar muito tarde no trabalho.
"Porque vocês torturra tanto os passagerras?" pergunta ela aos funcionários sorridentes e conta sua via sacra pelos aeroportos brasileiros.
No avião para Miami, ela estava na último assento da fila 38 - eu na da frente, no corredor. Ela mal cabia na cadeira e descobriu que não reclinava.
Deu um piti colossal, meio em inglês, meio em português. Toda cabine ouviu em silêncio. Uma comissária sorridente, cheia de desculpas, levou a gringa para outra cadeira.
A moça que estava no corredor ao meu lado ficou feliz, não pela saída da gringa, mas porque ela podia colocar uma sacolona no lugar vago pelo piti. Mas a alegria dela durou pouco.
"Esta sacola não pode viajar aí", disse uma comissária abrindo o compartimento de malas de cima.
"Esta é minha filha Samanta, disse a passageira". Abriu o zíper e mostrou uma gata gigantesca, bonachona.
"Se você colocar minha filha aí em cima eu vou dar um piti maior do que o da gringa. Experimenta pra você ver."
Lá se foram a passageira com a Samanta e a comissária sorridente para a frente da cabine.
O cidadão chegou esbodegado em Nova York e, naquele dia mesmo, tentou fazer uma transferência de dólares do Citibank para a Caixa Econômica Federal, em Belo Horizonte.
Depois de três dias e horas no telefone com o Brasil, descobriu que não era possível, mas nunca conversou com tanta gente fina, cordial e incompetente no telefone.
Parece que o Brasil não precisa de dólares, mas esta história fica para outro dia.
Texto de LUCAS MENDES