
Um dos textos que mais me chamou atenção durante todos esses anos quando trabalhei com pessoas foi o que estou colando abaixo. Nele, Julio Ribeiro, autor do livro “fazer acontecer” compara uma empresa normal a uma escola de samba. Vejam que interessante:
Através dos tempos, as empresas têm procurado usando das mais variadas técnicas de gerência, administrar e influenciar seu corpo de funcionários de tal modo a obter máxima produtividade, e nos tempos atuais, convenhamos, tem sido cada vez mais difícil motivar uma equipe a dar o máximo de si de modo a se atingir os objetivos planejados. Motivação parece ser a palavra chave. Como então motivar nossos parceiros para que todos possamos trabalhar felizes, contentes e unidos em torno do mesmo objetivo? É aqui que entra uma análise interessante, já objeto de diversos estudos feitos por alguns especialistas da área comportamental,do fenômeno escolas de samba. Sim, escolas de samba!!!Essa mesma de sambas enredo e tudo.
Flávio Toledo, um dos grandes mestres em organização empresarial já dizia ser a escola de samba a mais perfeita empresa, a mais surpreendente que ele conhecia do ponto de vista operacional, fundamentando assim sua análise:
“…Que outra instituição desse mundo conseguiria capitalizar todos os esforços de cerca de 10 mil sambistas, moradores do Morro da Mangueira e arredores? Eles comparecem pontualmente durante semanas ao mesmo local. Ensaiam coreografias, decoram a letra e melodia de sambas complicadíssimos; fazem pesquisas históricas; concebem cenografias holywoodianas; confeccionam milhares de adereços e organizam centenas de costureiras num barracão que é um primor de linha e montagem. Os sambistas lidam com milhares de dólares e pagam a fantasia do próprio bolso. Além disso, obedecem cegamente às ordens dos fiscais, chegam sem atraso à concentração e ajudam a empurrar carros alegóricos. Aí sambam por uma hora e ainda choram se a escola perde, é incrível! É muito mais complicado organizar uma escola de samba do que a General Motors!
E por que é que uma funciona com a perfeição de um relógio suíço e a outra não? É que numa escola de samba os objetivos e valores dos sambistas são rigorosamente os da diretoria. Todos querem a mesma coisa: desfilar bem…”
Os empresários muitas vezes perdem milhões ou até a própria empresa por esquecer um principio simples que rege as leis de convivência: As coisas só acontecem, na empresa, na escola de samba, no partido comunista, no governo ou em qualquer outro grupo, se as pessoas envolvidas quiserem que aconteça.
O gerente de banco precisa convencer seu atendente de que tratar bem o cliente é uma coisa importante. Já o diretor da escola de samba não precisa convencer nenhum sambista da necessidade de sambar bem. Esse desejo já dele.
Assim, para os planos de vendas de uma empresa darem realmente resultados, para as metas de produção serem alcançadas, é preciso que todos na empresa, do presidente à copeira, da diretoria aos boys, queiram genuinamente que esses mesmos objetivos sejam alcançados.
Todo treinamento que tenha por objetivo, valores estranhos às pessoas envolvidas se transforma em adestramento. É o mesmo que ensinar um cachorro a trazer o chinelo.
O Grande problema do adestramento é que o adestrado, seja um presidente da empresa, seja um chimpanzé, se não pratica todos os dias, acaba esquecendo o truque. As coisas só acontecem com a renovação constante do estimulo.
Freqüentemente assistimos as empresas tentarem implementar programa de redução de custos, melhoria da qualidade de atendimento, etc, que resultam em enormes fracassos, porque os procedimentos às vezes impostos nesses programas embutem valores que são conflitantes com os desejos e valores dos funcionários.
Imaginemos um sambista que divide o seu tempo entre trabalhar durante o dia numa empresa e a noite sambar. No emprego, vias de regra, os seus valores são opostos aos do seu chefe. Se puder, dorme um pouco mais e chega atrasado, tira quarenta minutos de café, leva dois jornais pra ler no banheiro, arranja atestado médico pra faltar, e deixa um casaco avulso na cadeira ao sair do escritório pra cuidar de assuntos particulares. Ameaças, reprimendas, conselhos, nada muda o seu procedimento, por quê?
Porque ele não acredita nos valores da empresa para qual trabalha. Assim, às quatro e meia, alegando para o chefe que tem que ir ao dentista, ele larga o trabalho, pega duas conduções, chega apressado em casa para pegar o tamborim e deixa de jantar para não chegar atrasado no ensaio da quadra. O ensaio termina à meia-noite, mas ele fica um pouco mais para ajudar na limpeza. Sai à uma e meia exausto, contente, já pensando na desculpa que vai dar para chegar atrasado ao escritório no dia seguinte. É a mesma pessoa. Na empresa, trabalha mal. Na escola de samba, trabalha de graça e se esforça.
Por que o paradoxo? Freud mais uma vez explica: “O ser humano é programado para procurar o prazer e fugir da dor”. Se a empresa ameaçar de forma convincente, pode conseguir cooperação enquanto durar o medo. Ao contrário, quando o ato a ser praticado é estimulante, a pessoa faz, mesmo que ninguém faça.