28/2/06
Juventude Transgressora
Quem um dia não sentiu que o proibido é mais gostoso?
Eu creio que o jovem sente isso sempre, embora ele não adimita. Aliás o que é que o jovem adimite? Ser jovem é ser uma mistura de experiência imaginária com transgressões surpreendentes.
O jovem não entende porque o mundo é tão complicado, não deveria ser. "Afinal é tão simples resolver as coisas. Mande-as à merda. Como ninguém nunca pensou nisso antes???"
E a revolta do jovem é algo assim: "Como ninguém faz assim…tão simples…" Da mesma forma que as crianças sonham e acham possível morar em uma casa de chocolate, um jovem pensa que um dia poderá consertar o mundo com uma de suas receitas caseiras.
Uma garota tinha escrito na capa do seu caderno: "Liberdade é poder fazer o que quiser sem ter que se preocupar com o que os outros pensam". Pobre garota que não entende que se todos resolvessem fazer o que quiser ela não teria liberdade pra nada. A base da democracia é haver lei, haver limites. Isso em todos os níveis. É óbvio que nada comparado a um regime político autoritário. Os extremos nunca foram inteligentes.
Neste final de semana, carnaval, reparei no comportamento da galera na praia. Perto de onde eu estava havia hospedados uns vinte caras numa casa. Pareciam se divertir. Levantavam cêdo, por volta das 8:00h. Eu sabia pois ouvia o som ser ligado. A vizinhança inteira ouvia. A cada hora tocava alguma coisa diferente. Músicas de balada, axé, samba, funk, axé de novo, funk de novo, sertanejo, axé… (até esperei um rockinho, mas não veio não)
Na parte interna 5 carros davam a idéia da quantidade de pessoas. Todos os carros "insulfilmados" e equipados com tudo que possam imaginar. As roupas, é claro, bermudas caindo com a cueca aparecendo, tatuagens, cabelos diferentes: um era moicano, o outro careca, o outro cabeludo, o outro normal… tinha gente normal (rs).
Na varanda uma pilha de latas de cerveja, vazias, eram o troféu para ser visto por todos que passassem. O som ia até umas 23:00h, afinal eles desligavam pra ir pras baladas. Aí virava som móvel, dos carros estacionados na orla, de preferência tocando algo da moda.
Na casa da frente algumas senhoras, uma delas muito irritada com uma música que continha palavrões e narrava sexo. Era uma sátira setaneja daquelas que aarancam risdada dos bêbados. Ela dizia que era falta de respeito. "Onde já se viu isso? Vim aqui para descansar e tenho que aguentar isso aí o dia todo". Elas saiam de manhã para andar na praia, voltavam lá pelas 11:30h, faziam almoço, almoçavam, lavavam a louça, dormiam, voltavam a praia, ficavam na areia, sentadas ao guarda-sol. Elas voltavam para assistir a novela, depois iam a feira de artesanato, todas as noites e todas as noites compravam coisas diferentes. "Olha o que eu encontrei!"
Agora a análise. As senhoras estavam certas, os garotos estavam incomodando, mas aí eu pergunto. Como elas eram quando jovens? Será que elas não transgrediam alguma coisa? Será que elas não davam um jeito de chamar atenção? Nem tanto, vão me responder.
O jovem tem muito disso, querer chamar atenção. E a maneira que ele encontra de fazê-lo é chocando a sociedade.
E isso não é de hoje. O que acontece é que quanto mais o tempo passa, mais os limites são quebrados e mais parece que está se chegando ao fim do mundo. Mas a verdade é que os transgressores vão aos poucos. Você é que demora perceber.
Enquanto isso os garotos dizem: "Meu, tô nem vendo! Vim aqui pra curtir. Nem tô, o som é meu e tô afim de ouvir. Se liga, mané!"
E velho é assim mesmo, seu avô também era assim. E mais: quando você tiver uns 50 vai estar assim também. Ou será que esses garotos vão chegar aos 50 de barbas longas, brancas e sem tomar banho? Daqui a pouco eles se "aquadradam" e começam a se incomodar com as crianças de hoje, que vão ter um jeito novo de dançar, de se vestir, de transgredir. E esse garoto de hoje, o velho de amanhã, vai falar chocado: "não faltava mais nada…"
criado por aguinaldocps
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